Guia · Custos
Os custos que reduzem seu rendimento e nenhum simulador mostra
Escrito por quem mantém um simulador. Se o resultado real veio abaixo do simulado, a explicação quase sempre está em um destes cinco itens.
Todo simulador de investimentos — o nosso incluído — calcula o rendimento bruto e desconta o imposto de renda. É uma aproximação honesta, mas é uma aproximação. Entre o número da simulação e o valor que efetivamente cai na sua conta existe um conjunto de custos que quase nenhuma ferramenta modela, porque dependem de informações que ela não tem: quando você vai resgatar, em qual instituição, sob qual estrutura de produto.
Este guia existe porque a pergunta mais frequente que recebemos é alguma variação de "por que o resultado do site não bate com o da minha corretora?". Na maioria dos casos, a resposta é um destes cinco.
1. IOF: o custo mais brutal, e o mais fácil de evitar
O Imposto sobre Operações Financeiras incide sobre o rendimento de aplicações de renda fixa resgatadas em menos de 30 dias. E incide de forma regressiva e agressiva: no primeiro dia, consome 96% do rendimento. No décimo, 66%. No vigésimo, 33%. A partir do trigésimo dia, desaparece.
| Dia do resgate | IOF sobre o rendimento | Rendimento que sobra |
|---|---|---|
| 1 | 96% | 4% |
| 5 | 80% | 20% |
| 10 | 66% | 34% |
| 20 | 33% | 67% |
| 29 | 3% | 97% |
| 30 ou mais | 0% | 100% |
Repare na assimetria: a diferença entre a pior e a melhor faixa de imposto de renda é de 7,5 pontos percentuais sobre o ganho. A diferença entre resgatar no dia 29 e no dia 30 é de 3 pontos. Mas a diferença entre resgatar no dia 1 e no dia 30 é de 96 pontos. Nenhuma outra decisão em renda fixa tem impacto proporcional a essa.
A lição prática é simples e vale mais que qualquer otimização de taxa: dinheiro que pode ser necessário nos próximos 30 dias não deve sair da conta. O ganho de colocá-lo em um CDB por três semanas é quase integralmente devorado pelo IOF.
Poupança, LCI e LCA não sofrem IOF. Na poupança, o mecanismo equivalente é o aniversário: resgatar antes de completar o mês significa não receber rendimento nenhum daquele período.
2. Taxa de custódia da B3, no Tesouro Direto
Quem compra títulos públicos paga à B3 uma taxa de custódia de 0,20% ao ano sobre o valor dos títulos, cobrada semestralmente. Ela não aparece como desconto na tela do rendimento: é debitada separadamente, o que faz muita gente nem notar que pagou.
Existe uma isenção relevante: o Tesouro Selic é isento de custódia até R$ 10.000 investidos, com a taxa incidindo apenas sobre o que exceder esse valor. Para uma reserva de emergência dentro desse limite, o custo é efetivamente zero.
Em termos de magnitude: 0,20% ao ano sobre R$ 50.000 são R$ 100 por ano. Não é catastrófico, mas é o suficiente para inverter uma comparação apertada entre um Tesouro Selic e um CDB de 100% do CDI com liquidez diária — e é exatamente o tipo de detalhe que uma simulação de rendimento bruto menos IR não captura.
A taxa da corretora é assunto separado. Desde 2019 a maioria zerou essa cobrança para Tesouro Direto, mas nem todas: vale confirmar antes, porque uma taxa de 0,30% ao ano da corretora somada à custódia da B3 muda a conta de verdade.
3. Come-cotas, se você investe por fundos
Este item não se aplica a quem compra títulos diretamente, e é justamente aí que mora a confusão. Em fundos de renda fixa e multimercado, a Receita não espera o resgate para cobrar imposto: antecipa a cobrança duas vezes por ano, em maio e novembro, reduzindo a quantidade de cotas que você possui. Daí o apelido.
A alíquota antecipada é de 15% para fundos classificados como de longo prazo e 20% para os de curto prazo. Se, no resgate, a tabela regressiva indicar alíquota maior que a já antecipada, a diferença é cobrada na hora.
O efeito não é pagar mais imposto no total — é pagar mais cedo. E pagar mais cedo, em juros compostos, custa caro: o dinheiro que saiu para o imposto em maio deixa de render pelos anos seguintes. Num horizonte longo, um fundo DI e um CDB com a mesma taxa bruta não entregam o mesmo resultado, e a diferença cresce com o tempo.
Some a isso a taxa de administração. Um fundo DI com taxa de 1% ao ano, num cenário de CDI próximo de 13,65%, entrega ao investidor algo em torno de 12,65% brutos antes de qualquer imposto — está devolvendo cerca de 7% do seu rendimento à gestora para replicar um índice. Fundos DI com taxa acima de 0,3% ao ano merecem desconfiança, porque o produto que eles replicam você consegue comprar direto.
4. Marcação a mercado: quando "rendimento garantido" não é garantido
Aqui não se trata de um custo explícito, mas de um risco que produz efeito de custo — e é o item que mais surpreende investidores.
Títulos prefixados e IPCA+ têm rentabilidade garantida até o vencimento. Essa expressão faz todo o trabalho. Se você vender antes, receberá o preço de mercado do título naquele dia, que oscila conforme a expectativa de juros futuros: quando o mercado passa a esperar juros mais altos, títulos emitidos com taxas menores valem menos, e a venda antecipada pode sair com prejuízo nominal.
O movimento é mais intenso quanto mais longo o vencimento. Um IPCA+ 2045 oscila muito mais que um prefixado 2027 diante da mesma mudança de cenário.
O Tesouro Selic é a exceção: por ser pós-fixado e acompanhar a taxa diária, praticamente não sofre marcação a mercado. É por isso que ele — e não o IPCA+, que costuma mostrar rentabilidade mais atraente na tela — é o título indicado para reserva de emergência.
Nosso simulador de Tesouro Direto assume permanência até o vencimento. Essa premissa está declarada na ferramenta justamente porque, rompida, o resultado deixa de valer.
5. A projeção de taxa constante
O último item é uma limitação estrutural de qualquer simulação, e vale enunciá-la sem rodeio: quando você simula cinco anos de um investimento pós-fixado, a ferramenta repete a taxa de hoje por sessenta meses. Isso não é previsão. É um exercício de "quanto renderia se as condições atuais permanecessem".
E elas não permanecem. Só em 2026 a Selic foi reduzida cinco vezes, acumulando 1,25 ponto percentual de queda desde março. Uma simulação de CDB pós-fixado feita em janeiro, com a taxa daquele momento, estaria hoje descrevendo um cenário que deixou de existir.
Como usar simulações sabendo disso: elas são boas para comparar produtos entre si sob as mesmas condições, e ruins para prever saldos futuros. A conclusão "neste cenário, a LCI isenta ganha do CDB tributado" é robusta. A conclusão "terei exatamente R$ 87.432 em cinco anos" não é.
Ordem de importância, na prática
Se você fosse cuidar de um item só, cuide do IOF — é o de maior impacto e o mais fácil de evitar, porque depende apenas de não resgatar antes de 30 dias. Depois dele, em ordem aproximada de quanto dinheiro costumam custar ao investidor médio:
| Custo | Quando morde | Como evitar ou reduzir |
|---|---|---|
| IOF | Resgate antes de 30 dias | Não aplicar dinheiro de curtíssimo prazo |
| Taxa de administração | Todos os dias, em fundos | Evitar fundo DI com taxa acima de 0,3% a.a. |
| Come-cotas | Maio e novembro, em fundos | Comprar título direto em vez de fundo |
| Marcação a mercado | Venda antecipada de pré e IPCA+ | Casar vencimento com o objetivo |
| Custódia B3 | Semestralmente, no Tesouro | Usar a isenção do Selic até R$ 10 mil |
Note o que ficou de fora dessa lista: a caça ao CDB que paga 2 pontos percentuais a mais do CDI. Ela costuma consumir a maior parte da energia de quem está começando, e é o fator de menor impacto entre os citados aqui — além de, com frequência, embutir mais risco de crédito.