Guia · Tesouro Direto
Tesouro Direto caiu? Marcação a mercado e quanto você perde de verdade
Depois do 2º turno de 2026, o extrato de muita gente ficou no vermelho. Na maioria dos casos o prejuízo só existe se você vender agora. Veja por quê e calcule o seu caso.
O que aconteceu no fim de outubro de 2026
No domingo, 25 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito no 2º turno com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, segundo o TSE. O resultado contrariou o que boa parte do mercado esperava, e a reação na segunda-feira (26) foi forte: o dólar teve a maior alta em um dia desde 1999, a bolsa caiu 13,88% e o Tesouro Direto chegou a suspender as negociações por causa da oscilação das taxas.
Fontes: resultado do TSE publicado pelo g1; dólar comercial no Valor Investe; Ibovespa no E-Investidor.
Para quem tem renda fixa, o que importa é o que aconteceu com os juros. As taxas dos títulos prefixados e atrelados à inflação (IPCA+) subiram de uma vez. No pior momento do dia 26, os IPCA+ passaram de 8% ao ano mais inflação e os prefixados chegaram perto de 16% ao ano. Quando a taxa sobe, o preço do título que você já tem cai.
| Título | Taxa em 23/10 | Taxa em 27/10 | Variação do preço | R$ 10 mil viraram |
|---|---|---|---|---|
| Tesouro Selic 2031 | Selic + 0,0989% | Selic + 0,10% | +0,10% | R$ 10.010 |
| Tesouro Prefixado 2029 | 12,76% | 14,79% | -3,68% | R$ 9.632 |
| Tesouro IPCA+ 2032 | IPCA + 6,72% | IPCA + 7,78% | -5,49% | R$ 9.451 |
| Tesouro Prefixado 2032 | 12,89% | 15,06% | -9,24% | R$ 9.076 |
| Tesouro IPCA+ 2040 | IPCA + 6,53% | IPCA + 7,53% | -11,99% | R$ 8.801 |
| Tesouro IPCA+ 2050 | IPCA + 6,42% | IPCA + 7,18% | -15,45% | R$ 8.455 |
Preços de investimento divulgados pelo Tesouro Nacional nos fechamentos de 23 e 27 de outubro de 2026, publicados pelo Valor Investe (23/10) e pelo Valor Investe (27/10). Variação calculada pelo Quanto Rendeu. O preço de resgate é um pouco menor que o de investimento.
Duas coisas ficam claras na tabela. O Tesouro Selic praticamente não se mexeu: subiu 0,10% enquanto todo o resto caía. E quanto mais longo o título, maior a queda: o Prefixado 2029 perdeu 3,7%, o IPCA+ 2050 perdeu 15,5%.
Por que o preço cai quando a taxa sobe
Um título prefixado é uma promessa: o governo paga R$ 1.000 numa data futura. O preço de hoje é o valor que, rendendo a taxa do dia até o vencimento, chega a esses R$ 1.000. Se a taxa do mercado sobe, é preciso menos dinheiro hoje para chegar ao mesmo valor, e o preço cai.
O Prefixado 2032 mostra a conta. Com a taxa a 12,89%, ele custava R$ 535,52. Com a taxa a 15,06%, passou a custar R$ 486,04, 9,2% a menos. O pagamento no vencimento não mudou: continua sendo R$ 1.000 em 1º de janeiro de 2032. Mudou só o preço pelo qual alguém compraria o seu título hoje.
O IPCA+ funciona igual, com a diferença de que a parte que oscila é a taxa real (o "+ 6,72%" ou "+ 7,78%"). A correção pela inflação continua entrando normalmente.
É por isso que o prazo pesa tanto. Uma diferença de 1 ponto na taxa, aplicada sobre 2 anos, mexe pouco no preço. A mesma diferença aplicada sobre 24 anos, como no IPCA+ 2050, mexe muito.
Calcule o seu título
Informe quanto o seu título valia antes da alta, a taxa que o mercado pagava naquele dia, a taxa de hoje e quantos anos faltam para o vencimento. Os valores já vêm com o exemplo do Prefixado 2032.
Conta simplificada: anos corridos no lugar de dias úteis e sem o spread entre preço de compra e de venda. Para títulos com juros semestrais a queda é um pouco menor que a calculada. Serve para ter a ordem de grandeza.
Vender ou esperar?
A pergunta certa é quando você vai precisar do dinheiro. A marcação a mercado muda o valor de hoje, mas não muda o que você recebe no vencimento: quem comprou um Prefixado 2032 a 12,89% continua recebendo 12,89% ao ano se ficar com ele até 2032.
Vender agora transforma a queda do extrato em perda de verdade. Faz sentido se você precisa do dinheiro antes do vencimento ou se encontrou um uso claramente melhor para ele. Vender só para "parar de perder" costuma ser o pior momento, porque é justamente depois da queda.
O episódio também mostra para que serve cada título. Dinheiro que pode ser necessário a qualquer momento, como a reserva de emergência, não deveria estar em prefixado ou IPCA+ longo. O lugar dele é o Tesouro Selic ou um CDB de liquidez diária, que não sofrem com a marcação a mercado. O guia CDB ou Tesouro Direto explica a escolha.
E para quem vai investir agora
O outro lado da queda é que as taxas ficaram mais altas. Quem compra agora um título e leva até o vencimento trava o retorno do dia da compra. A tabela acima mostra a diferença: em uma semana, o Prefixado 2032 passou de 12,89% para 15,06% ao ano.
O risco continua o mesmo de antes. Se as taxas subirem mais, o preço cai de novo no caminho, e ninguém sabe a direção dos juros nos próximos meses. Por isso a regra prática é escolher um vencimento próximo da data em que você vai usar o dinheiro. Assim a marcação a mercado deixa de importar.
A Selic é outro ponto de atenção. Ela está em 13,75% ao ano, e o Copom se reúne em 3 e 4 de novembro de 2026. A página Copom mostra a decisão assim que ela é registrada pelo Banco Central, e o simulador do Tesouro Direto compara Selic, prefixado e IPCA+ com as taxas do dia.
O dólar no mesmo período
O câmbio se mexeu junto. Pela cotação oficial do Banco Central (PTAX, média do dia), o dólar saiu de R$ 5,04 na sexta antes do 2º turno para R$ 5,50 na segunda seguinte, alta de 9,2% em um pregão. Até o fim da semana devolveu uma parte.
| Dia | Dólar PTAX (venda) |
|---|---|
| 23/10 (sexta, antes do 2º turno) | R$ 5,0377 |
| 26/10 (segunda, depois do resultado) | R$ 5,5007 |
| 27/10 | R$ 5,3346 |
| 30/10 | R$ 5,4212 |
Fonte: Banco Central do Brasil, série 1 do SGS (PTAX venda). A PTAX é a média do dia e difere da cotação de fechamento citada pelos jornais.
Quem quer ver o efeito de longo prazo do dólar contra a renda fixa encontra a comparação mês a mês desde 2016 na página Quanto rendeu.